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A incompatibilidade entre caridade e orgulho

Naqueles dias em que os pés divinos de Nosso Senhor Jesus Cristo andavam por Israel, quantos foram os que ouviram falar daquele grande profeta, que operava os milagres mais espetaculares de toda ordem: cegos que passavam a enxergar, paralíticos andavam, surdos ouviam e mudos falavam, os possuídos eram libertos e até – prodígio mais impressionante – os mortos ressuscitavam.

À medida que a fama daquele Varão, taumaturgo sem par, crescia em Israel, aumentava o número dos que procuravam se acercar dEle, para buscar a cura dos males que lhes causavam sofrimentos extenuantes. E eram generosamente atendidos em seus anseios. Em meio à alegria do prodígio alcançado por uns, presenciado por outros, todos ficavam impressionados com seus milagres, ao mesmo tempo em que se sentiam atraídos pelos ensinamentos, dotados de força persuasiva e bondade, mesclada de uma grandeza arrebatadora.

As palavras do grande Sacerdote missionário redentorista, Padre Augustin Berthe, expressam com clareza o impacto e o significado da presença do Homem-Deus:

“Há dois mil anos, apareceu na Judéia um figura verdadeiramente incomparável. Revelou aos homens uma doutrina, cuja sabedoria e beleza os maiores sábios jamais puderam igualar; os prodígios que realizou superaram os dos grandes taumaturgos; as suas profecias transcenderam as de todos os profetas; o seu heroísmo sobrepujou todos os potentados deste mundo; o drama da sua vida lançou na sombra as tragédias mais pungentes.” (1)

 Eis a doutrina, milagres e, sobretudo, a presença dotada de potência, daquele Homem, própria a despertar a admiração e o amor da unanimidade dos corações. No entanto, esta conquista unânime dos corações por aquele Coração de bondade não se deu. E veio a confirmar – entre outras tantas profecias – aquelas palavras proféticas do justo e velho Simeão – cerca de trinta anos antes – ao ter nos seus braços o Menino que viria a ser este Varão, apresentado por seus pais no Templo de Jerusalém, para cumprirem o estabelecido na lei de Moisés: “Eis que este menino vai ser causa de queda e elevação de muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição […] Assim serão revelados os pensamentos de muitos corações” (conf. Lc 2, 33-35).

Esta dolorosa realidade, em relação Aquele cujo “Coração que tanto amou os homens, que nada poupou até Se esgotar e consumir para lhes testemunhar seu amor, e que, como retribuição, da maior parte só recebe ingratidões” (2), é de maneira eloquente apresentada pelo Evangelho deste 11º Domingo deste Tempo Comum: de um lado, a antipatia e o ódio do fariseu Simão que recebe em sua casa a Jesus e, de outro, amor e admiração regeneradores da pecadora arrependida Maria Madalena.

Quais eram as disposições de alma do fariseu Simão, em face de Jesus, que ele próprio ouvira falar da fama dos milagres, entre os quais a ressurreição da filha de Jairo (Lc 7, 41-55)? Convida a Jesus para um festim, sem propiciar a Nosso Senhor as honras devidas a um ilustre visitante, trata-O como a um conviva qualquer. Para pasmo seu, Simão vê uma pecadora pública que entra no recinto da festa, ajoelha-se junto ao Mestre e em prantos começa banhar, com suas lágrimas, os pés adoráveis do Salvador e a enxugá-los com seus cabelos.

Eis, que diante deste Varão, “serão revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 35). Assim nos comenta Mons. João Clá Dias, a atitude de Simão: “[…] o fariseu, ao assistir a tão escandalosa cena: ‘Se este fosse profeta, com certeza saberia de que espécie é a mulher que O toca: uma pecadora’. Seu juízo é apressado e infundado. Assim como não teve fé e amor para enlevar-se com o Mestre, faltou-lhe também o discernimento para, na ex-pecadora, ver e interpretar os sinais de um arrependimento perfeito, pois são notórios os defeitos do vício ou da virtude estampados na face (cf. Eclo 13, 31)”. E bem observa: “O orgulho de ser um rigoroso e sábio legista levou-o a uma conclusão aparentemente lógica, mas em realidade temerária, contra o Médico e contra a enferma” (3).

Se assim foi o orgulho, antipatia e malevolência do fariseu, em uma palavra, de sua falta de amor, o que dizer da atitude da pecadora?

Observa o Fundador dos Arautos, Mons. João Clá Dias: “Há muito que Maria Madalena havia provado o vazio e a mentira do pecado. Sua alma delicada ansiava uma oportunidade para mudar de vida, mas as circunstâncias a impediam de realizar esse bom intento. Por pura fraqueza caíra naqueles horrores. Mas, em seu coração feminino, guardava uma grande admiração pela virtude e – por incrível que pareça – em especial pela pureza” (4). E em relação ao Mestre? “As primeiríssimas reações de sua alma em relação a Jesus foram de simpatia. Desde o início, ela o amou mais do que a si própria e anelava pela oportunidade de se aproximar d’Ele”(5).

Eis aqui os dois modos paradigmáticos de se colocar diante do Sagrado Coração de Jesus: amor e admiração, ou então recusa e antipatia; ficando assim apontado para uma incompatibilidade substancial entre caridade e orgulho.

Nossa Senhora do Divino Amor – Casa Mãe dos Arautos

São Paulo nos indica as características da verdadeira caridade, quando nos diz: “O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho” (I Cor 13, 4).

Peçamos, portanto, à Nossa Senhora do Sagrado Coração e Mãe do Divino Amor, que nos obtenha de Seu Filho Adorável a graça de verdadeiramente amarmos ao Sagrado Coração de Jesus, e mediante esta caridade, sermos admirativos, generosos e agradecidos para com Deus e edificarmos ao próximo, fazendo-lhe sempre o bem.

Adilson Costa da Costa

 
 
1. Padre Augustin Berthe. Jesus Cristo: Vida, Paixão e Triunfo. Porto: Livraria Civilização Editora, s/d, p. 9.
2. Padre Hamilton José Naville. Trezena das promessas do Sagrado Coração Jesus. São Paulo: ARNSG, 2012, p. 12.
3. Mons. João S. Clá Dias, EP. O inédito sobre os Evangelhos. v. VI, Coedição internacional de Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana e São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012, p. 156.
4. Mons. João S. Clá Dias, EP. op. cit., p. 153-154.
5. Mons. João S. Clá Dias, EP. op. cit., p. 155.

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Os milagres da graça: a flor da contrição e a rosa da confissão

Nas Sagradas Escrituras encontramos algo muito evocador do que é a realidade da vida, na qual o homem experimenta certos estados de alma e manifesta reações diversas, conforme as circunstâncias que naquele momento vivencia:

Todas as coisas têm o seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu segundo o tempo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou. Há tempo de matar, e tempo de sarar. Há tempo de destruir, e tempo de edificar. Há tempo de chorar, e tempo de rir. Há tempo de se afligir, e tempo de dançar. Há tempo de espalhar pedras, e tempo de as ajuntar. Há tempo dar abraços, e tempo de se afastar deles. Há tempo de adquirir, e tempo de perder. Há tempo de guardar, e tempo de lançar fora. Há tempo de rasgar, e tempo de coser. Há tempo de calar, e tempo de falar. Há tempo de amor, e tempo de ódio. Há tempo de guerra, e tempo de paz” (Eclesiastes 3, 1-8).

Dentre as situações e vivências pelas quais passamos, uma sempre está presente: “há tempo de chorar, e tempo de rir”. Quem de nós nunca passou por circunstâncias em que choramos, ou então que nos alegramos especialmente? Isto faz parte da história dos homens, seja na atualidade ou em tempos remotos. É o que podemos contemplar na leitura do Evangelho, narrado por São Lucas, na qual vemos Nosso Senhor Jesus Cristo operar, por sua iniciativa, milagre magnífico: “a ressurreição do filho da viúva de Naim” (Lc 11-17).

Podemos nós imaginar o sofrimento daquela mulher da pequena cidade de Naim; viúva, que tendo como amparo e razão defelicidade seu único filho, e o perde? Qual não foi o sofrimento desta mãe, o quanto ela chorou a morte de seu dom precioso, seu filho amado? Eis, no entanto, que pelo cortejo fúnebre, passa “por acaso”, Aquele que é o “Senhor da vida e o Senhor da morte”, tem pena daquela pobre mulher e lhe diz: “não chores” e, adiantando-se ao caixão, com autoridade, determina ao cadáver: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!”. E a ressurreição se deu. O que era pranto lancinante, logo em seguida se transforma em felicidade: aquela mãe recebe, vivo, seu amado filho! A tristeza dá lugar à alegria. De fato: há tempos de chorar e tempo de rir…

Esta mãe ficou alegre! E as pessoas que acompanhavam o cortejo fúnebre? Qual a reação delas? São Lucas assim diz: “Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: “Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo” (Lc 3, 16).

A multidão que presenciara aquele milagre ficou com medo e estupefata. Com efeito, o fato de um morto ressuscitar diante dos olhos de alguém (melhor dizendo: ser ressuscitado) antes mesmo da “Ressurreição da carne” (11º Artigo do Credo), em que “no dia do juízo todos os mortos ressuscitarão com o mesmo corpo que tivemos nesta vida” (1), é realmente próprio a causar impressão de espanto.

No entanto, algo freqüente e incomparavelmente maior se dá, do ponto de vista sobrenatural: a ressurreição espiritual.

Assim como o corpo tem vida, a alma também tem vida. O que dá vida ao corpo é a alma. O que dá vida à alma é a graça de Deus; e não há algo mais valioso para cada um de nós do que ter a graça de Deus, chamada graça santificante que “é um dom sobrenatural inerente à nossa alma, que nos faz santos, filhos adotivos de Deus e herdeiros do céu” (2). Este dom nós o recebemos quando fomos batizados. Mas, ó tristeza: perdemos tal dom “pelo pecado mortal”. (3)

Quando da perda da vida sobrenatural, da vida da graça na alma, como fazer para recuperá-la? Eis a questão que nos levanta o Fundador dos Arautos, Mons. João Clá Dias, EP: “Como, pois, ressuscitar alguém espiritualmente, após haver transposto os umbrais da morte do pecado grave? Era isso impossível se não houvesse o Redentor”. (4) [grifo nosso]

E continua a nos explicar:

Nosso Senhor Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, compadeceu-se dos que permaneciam envoltos nas trevas e na sombra da morte (cf. Lc 1, 79) e tomou a iniciativa de encarnar-Se, sofrer a Paixão e a morte da Cruz, para triunfar na Ressurreição, a fim de ressuscitar ao corpo inerte da humanidade pecadora. Ele, o Verbo Eterno, traz a vida da graça, que é infundida nos corações dos fiéis, como Ele mesmo dirá: ‘Eu vim para que vós tenhais vida e a tenhais em abundância’ (Jo 10, 10). Ao assumir a natureza humana […] nos lega o precioso dom dos Sacramentos, para manter a vida sobrenatural por Ele instaurada”.

Assim, verificamos que essa ressurreição espiritual, a recuperação da vida da graça, se dá pelos méritos infinitos de um Sagrado Coração que tanto amou os homens, que nos deu os Sacramentos e tomou a iniciativa de nos fazer o bem. E nos dá, com sua bênção, a via pela qual recuperamos a graça santificante, caso a percamos. Como nos ensina o Catecismo: “A graça santificante se recupera pelo sacramento da Confissão ou por um ato de contrição perfeita, unido ao desejo de se confessar”. (5)

Aqui está algo mais impressionante do que uma ressurreição corporal, a ressurreição espiritual. Sobre este “milagre da graça”, do perdão do pecado e da recuperação da graça santificante, através da Confissão e do arrependimento perfeito, operados misericordiosamente pelo Sagrado Coração de Jesus, assim nos explica,de forma poética, o grande presbítero e Doutor da Igreja (+ 1231), Santo Antônio de Pádua:

Se maltratas uma criança, a insultas ou espancas, mas depois lhe mostras e dás de presente uma flor, uma rosa ou algo do gênero, ela se esquece da injúria recebida e, sem cólera alguma, corre a abraçar-te.

Da mesma forma, se ofenderes Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo pecado mortal ou qualquer ação injuriosa, mas depois Lhe ofereceres a flor da contrição ou a rosa de uma confissão banhada em lágrimas – as lágrimas são o sangue da alma – Ele olvidará tua ofensa, perdoará tua culpa e correrá a abraçar-te e oscular-se”. (6) [grifo nosso]

Aqui está o milagre maior do que uma ressurreição física: a ressurreição espiritual por meio da “flor da contrição” e da “rosa da confissão”.Peçamos ao Sagrado Coração de Jesus neste seu Mês de Junho, por meio do Imaculado Coração de Maria, que nos conceda sempre a graça da contrição perfeita por nossos pecados e que nunca tenhamos “medo” de nos acercarmos do Sacramento da Confissão, pois é através destas duas flores que oferecemos a Ele, que seremos estreitados a Seu Divino Coração.

Sagrado Coração de Jesus, tende piedade de nós!

Imaculado Coração de Maria, fazei nosso coração semelhante ao Coração de Jesus!

Por Adilson Costa da Costa

(1) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Dos três últimos artigos do Credo. 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 33.
(2) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Op. cit. p. 62.
(3) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Op. cit., p. 62.
(4) Mons. João S, Clá Dias, EP. O inédito sobre os Evangelhos. v. VI, Coedição internacional de Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana e São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012, p. 147.
(5) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Dos sacramentos em geral. 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 62.
(6) Santo Antônio de Pádua. Sermão na Natividade do Senhor, 11. In: Revista Arautos do Evangelho, ano XII, n. 138, jun. 2013.

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Uma Mãe que reza por você

Neste período litúrgico do Tempo Comum, somos convidados a contemplar inúmeros milagres operados por Nosso Senhor Jesus Cristo, que concorrem para provar, de maneira fabulosa, a sua divindade.

Entre estes milagres um especialmente, narrado pelo evangelista São Lucas (7, 1-10), atrai-nos a atenção: a cura do empregado do centurião romano. E vários são os admiráveis aspectos que nos evoca esta cura: feita à distância por Jesus, além do que restituída a saúde perfeita daquele servo (o que não era comum numa cura milagrosa que se dava pela intercessão dos fariseus, sendo que algumas seqüelas permaneciam da doença), a humildade do centurião que, embora autoridade cheia de prestígio em Cafarnaum, reconhece-se indigno de se aproximar de Jesus ou de recebê-Lo em sua casa; e ainda, a própria admiração de Nosso Senhor sobre a fé do centurião na Divindade. Enfim, quantas maravilhas!

Face à impossibilidade de nos aprofundarmos na contemplação de todas estas belezas, pois a dimensão de um artigo não as comporta, deitemos nossa atenção para um aspecto talvez ainda insuficientemente considerado, no entanto rico e benfazejo para nossa vida espiritual e nossa própria existência humana.

Qual é este aspecto? Trata-se de uma “peculiaridade”, no dizer de Mons. João S. Clá Dias, um pormenor, no entanto muito alentador como poderemos verificar. É a realização do milagre feito por Jesus, pela intercessão de alguém cheio de fé e confiança no Salvador, em favor de outro, em atenção à fé do intercessor pedinte e não do beneficiado: “[…] repete-se, no caso, uma peculiaridade que já havia movido Jesus a realizar outros milagres, como a cura da sogra de Pedro (cf. 4, 38-39), ou o restabelecimento e perdão dos pecados do paralítico descido pela abertura de um teto (cf. Mc 2, 3-5): o Salvador não exige dos enfermos a manifestação do desejo de serem curados, bastando-lhe a fé dos intercessores” (1) [grifos nossos].

Com efeito, o Evangelho expressa a estima que o oficial romano tinha por seu empregado, tendo assim intercedido por ele, porém não menciona a razão porque este serviçal não implorara sua própria cura, sendo possível que este não detivesse um conhecimento mais aprofundado de quem era Nosso Senhor – em decorrência do qual lhe faltaria a fé – ou mesmo por alguma impossibilidade física, não manifestou ele mesmo ao Mestre o desejo de ser curado.

Seja como for, o pedido simples, humilde e cheio de fé foi feito pelo seu senhor e aí o fato: Jesus curou em atenção a uma mediação. Ou seja, a mediação feita com humildade e fé traz benefícios para o outro. Em suma: eis a eficácia da “fé dos intercessores”. Ou seja, Nosso Senhor gosta que rezemos uns pelos ou outros e vê com olhos misericordiosos o pedido de uns para com seus semelhantes. Tanto assim que, quando solicitado por um dos discípulos que os ensinasse a rezar, Ele disse-lhes a Oração mais bela da História e da piedade cristã (Lc 11, 2-4) e a mais agradável a Deus (2), porque ensinada pelo próprio Homem-Deus, na qual aconselha-nos a nos dirigirmos ao Pai Nosso e pedirmos por todos, e não somente para si, individualmente.

Eis aí, com efeito, o papel dos intercessores, daqueles que pedem a Deus pelo próximo, que dirigem súplicas ao Pai Eterno para que atenda as necessidades dos irmãos. A tal ponto é benéfico tal intercessão, que São Paulo assim se expressa em carta aos cristãos de Roma: “Rogo-vos, pois, irmãos, por Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo amor do Espírito Santo, que me ajudeis com as vossas orações por mim a Deus” (Rm 15, 30).

Isto para nós é de uma motivação, fortalecimento e consolidação em nós da esperança, virtude teologal “pela qual confiamos alcançar de Deus a vida eterna e os meios necessários para consegui-la” (3). Pois, se é verdade que em certos momentos, nos sintamos desestimulados devido às nossas falhas ou faltas para com Deus, podemos nos consolar, pois o Deus da Misericórdia estará aberto à prece feita pelos outros em nosso favor. Seja o pai, a mãe, um irmão, uma irmã, um amigo nosso ou até um desconhecido, alguém enfim que reze e peça por nós com fé, e sem que até o saibamos, recebemos favores e graças de Deus em quantidade e qualidade excelentes. Oh! Que maravilha, em relação à qual só poderemos tomar inteira ciência quando no Céu estivermos, pela bondade de Deus, conhecendo aqueles que nos fizeram bem e intercederam por nós. Quanta alegria!

Mas, a ti caro leitor, que porventura se julgue desamparado, sem parentes e amigos ou desconhecidos seu, que peçam por você… Realmente uma triste situação, pensará. No entanto, ainda que tal situação tivesse uma verossimilhança – uma aparência de verdade – absolutamente falando, isto não é assim. Poderia então acrescer: real ou hipotético, não tenho quem reze e interceda por mim!

Sim, você, eu, qualquer homem, mulher, criança, adolescente ou adulto da face da terra, tem alguém que pede por cada um em particular. Sendo que, com uma diferença, em relação à pessoa que é intercessora: não se trata do centurião romano, nem dos discípulos, no caso da sogra de Pedro, nem mesmo dos amigos do paralítico, casos que já mencionamos e que são descritos no Evangelho.

Mas, afinal, quem é esta pessoa que intercede por nós?

Mãe do Divino Amor
Paróquia de San Guinés – Madri – Espanha

É Maria, Mãe espiritual dos homens, é a nossa Mãe! “Maria é […] nossa Mãe verdadeira, não propriamente carnal, mas espiritual; não natural, mas sobrenatural. Esta verdade é a conseqüência lógica, necessária, da cooperação de Maria para a nossa Redenção, ou seja, nossa regeneração para a vida da graça”, conforme sacerdote mariano. (4)

A intercessão de Maria é universal, não discrimina ninguém, sempre aberta a todos e pedindo por todos, pobres, ricos, inteligentes, ignorantes, santos e pecadores, o que for; Ela é Mãe, a melhor de todas as mães. Vejamos de que forma São Luís Maria G. de Montfort descreve o amor de Maria Santíssima para conosco:

Ela os ama ternamente, e com mais ternura que todas as mães juntas. Acumulai de se puderdes, num só coração materno e por um filho único, todo amor natural que todas as mães deste mundo têm por seus filhos: sem dúvida essa mãe amaria muito esse filho. É verdade, entretanto, que Maria ama ainda mais ternamente seus filhos do que aquela mãe amaria o seu. Ela não os ama somente com afeição, mas também com eficácia. (5)

E por que Nossa Senhora é nossa medianeira? Nos responde, em consonância com o sentir comum dos teólogos, Mons. João Clá Dias: “É, pois, em conseqüência de sua cooperação no sacrifício redentor de Cristo Jesus, e de sua maternidade espiritual sobre todos os redimidos, que Maria adquiriu os títulos de Medianeira e Dispensadora universal de todas as graças…”. (6)

Esta doutrina está consignada de modo expresso e claro no Catecismo da Igreja Católica, quando ensina:

Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente, a partir do consentimento que ela fielmente prestou na anunciação, que sob a cruz resolutamente manteve, até a perpétua consumação de todos os eleitos. Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas, por sua múltipla intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna. (…) Por isso, a bem-aventurada Virgem Maria é invocada na Igreja sob os títulos de advogada, auxiliadora, protetora, medianeira. (7)

Eis a maravilhosa lição que podemos tirar a propósito destas considerações que fizemos a partir da contemplação de Jesus operando seus milagres a rogos de intercessores e mediadores, subindo para a mais alta das mediações: temos uma Mãe que reza por você, uma Mãe que reza por mim. Diante de tal misericórdia divina, precisaremos a eternidade para agradecer tamanha dádiva. A Mãe de Deus e nossa pede por nós. Que poderemos nós temer?

Sigamos o conselho que nos dá São Bernardo, o Doutor melífluo, invocando sempre Maria, a Estrela do Mar, por nós e pelos outros, confiando inteiramente em sua intercessão:

E o nome da Virgem era Maria (Lc. 1, 27). Falemos um pouco deste nome que significa, segundo se diz, Estrela do mar, e que convém maravilhosamente à Virgem Mãe… Ela é verdadeiramente esta esplêndida estrela que devia se levantar sobre a imensidade do mar, toda brilhante por seus méritos, radiante por seus exemplos.

Ó tu, quem quer que sejas, que te sentes longe da terra firme, arrastado pelas ondas deste mundo, no meio das borrascas e tempestades, se não queres soçobrar, não tires os olhos da luz desta estrela.

Se o vento das tentações se levanta, se o escolho das tribulações se interpõe em teu caminho, olha a estrela, invoca Maria.

Se és balouçado pelas vagas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja, olha a estrela, invoca Maria.

Se a cólera, a avareza, os desejos impuros sacodem a frágil embarcação de tua alma, levanta os olhos para Maria.

Se, perturbado pela lembrança da enormidade de teus crimes, confuso à vista das torpezas de tua consciência, aterrorizado pelo medo do Juízo, começas a te deixar arrastar pelo turbilhão da tristeza, a despenhar no abismo do desespero, pensa em Maria.

Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria.

Que seu nome nunca se afaste de teus lábios, jamais abandone teu coração; e para alcançar o socorro da intercessão dEla, não negligencies os exemplos de sua vida.

Seguindo-A, não te transviarás; rezando a Ela, não desesperarás; pensando nEla, evitarás todo erro.

Se Ela te sustenta, não cairás; se Ela te protege, nada terás a temer; se Ela te conduz, não te cansarás; se Ela te é favorável, alcançarás o fim.

E assim verificarás, por tua própria experiência, com quanta razão foi dito: “E o nome da Virgem era Maria. (8)

Por Adilson Costa da Costa

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(1) Mons. João S, Clá Dias, EP. O inédito sobre os Evangelhos. v. VI, Coedição internacional de Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012, p. 128.
 (2) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Do Pai Nosso. 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 38.
 (3) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. Da Esperança. 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 100.
 (4) Padre Gabriel Roschini. Instruções Marianas. São Paulo: Paulinas, 1960, p 72.
 (5) São Luís Maria G. de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 42ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 195.
 (6) Mons. João S. Clá Dias, EP. Pequeno Ofício da Imaculada Conceição Comentado. v. II, 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011, p. 125.
 (7) Catecismo da Igreja Católica. A maternidade de Maria com relação à Igreja: n. 969. 11ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001, p. 273-274.
 (8) São Bernardo. A Maria Estrela do Mar. Disponível em: <http://oracoes.arautos.org/2011/10/a-maria-estrela-do-mar/>. Acesso em 31 maio 2013.

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A limitação da inteligência humana e a fé diante da Santíssima Trindade

            A humanidade ao longo dos anos e séculos, através de estudos e pesquisas, vem desenvolvendo inventos que inequivocamente trouxeram benefícios de toda ordem. Bastará citar no campo da saúde a descoberta da penicilina no ano de 1928, pelo médico inglês Alexander Fleming, devemos mencionar os avanços tecnológicos como o elevador, a luz elétrica, o telefone, ou então, na área dos transportes o avião a jato que permitiu viagens intercontinentais em questão de horas, ao passo que os navios no início do século XX demoravam semanas.

No âmbito da comunicação, as propagandeadas tecnologias de informação e comunicação (TICs) dinamizam os processos de troca de informações entre as pessoas; dentre as quais podemos citar os telefones celulares (agora em suas novas gerações de smartphones), a internet, tablets e muitos outros recursos tecnológicos que surgem a cada dia e que integram o quotidiano dos indivíduos; tanto que no final do ano de 2012 o Brasil contava com 261,8 milhões de aparelhos celulares ativos para uma população de, aproximadamente, 197 milhões de habitantes (1) .

No entanto, se de um lado o conhecimento humano – que é a base do referido progresso e das novas tecnologias – vem trazendo-nos tantas vantagens, por outro, ainda que seja amplo e aprofundado, depara-se com obstáculos e incógnitas que não sabe resolver, nem apresentar construções benéficas que atendam todas as nossas necessidades. Percebe-se, desta forma, quanto a capacidade humana e a inteligência são limitadas e inoperantes frente ao que poderíamos chamar de “mistérios da natureza”. Sim, quantos são estes mistérios que o homem não consegue penetrar!

Essa incapacidade da inteligência humana para explicar todos os fenômenos da natureza tem levado cientistas, dos mais renomados, a reconhecer a contingência do ser humano. Sim, somos limitados e não conseguimos compreender sequer aquilo que está no domínio de nossos sentidos. Esta afirmação pode ser comprovada através de pesquisa publicada por uma equipe da Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde se assevera, a partir de mapeamento realizado em centenas de pessoas, uma tese recorrente na neurociência: nossa inteligência chegou a seu limite (2).

Esta incapacidade em entender pela razão os fenômenos naturais cresce e atinge sua maior realidade quando o homem busca a compreensão e o verdadeiro conhecimento de Deus.

Bem disse a esse propósito São Belarmino: “Se tantos objetos neste mundo são inexplicáveis para o homem, quanto maior é o perigo de errar quando ele procura perscrutar o que está acima dos céus” (3).

Estas considerações vêm à nossa mente a propósito daquele que é, no sentido pleno do termo, um mistério, ou melhor, o maior Mistério diante do qual o homem fica menor do que um “átomo”, um nada, e que a Igreja celebra, a partir do período do pontificado de João XXII (1316-1334), com as grandezas de uma Solenidade: o Mistério da Santíssima Trindade.

Com efeito, nos ensina o Magistério infalível da Igreja que o Mistério da Santíssima Trindade é “o mistério de um só Deus em três pessoas iguais e realmente distintas que são o Pai, o Filho e o Espírito Santo” (4). E continua a nos explicar o Catecismo: “As três pessoas da Santíssima Trindade são um só Deus, porque que todas têm uma só e a mesma natureza divina” e “são todas iguais, porque todas têm a mesma natureza divina, o mesmo poder e a mesma sabedoria” (5).

Diante deste ensinamento, poderíamos nos perguntar: conseguimos nós, por mais inteligentes que uns e outros sejamos, penetrar e ter uma compreensão plena deste mistério? E, sem dúvida, todos serão unânimes em responder: simplesmente falando não compreendemos em toda a sua dimensão o Mistério da Santíssima Trindade! E por qual razão? Pelo simples fato de que não somos deuses, conforme pontua Santo Antônio Maria Claret:

Incompreensível vos parecerá isto, sem dúvida. E se pudéssemos compreendê-lo, ou seríamos Deus, ou Aquele cuja natureza declarássemos como é em si, não o seria. O que teria de precioso a Divindade incompreensível – pergunta Eusébio Emiseno – se a sabedoria humana pudesse compreender aquele Senhor que habita nas alturas, ao qual as nuvens servem de abajur e que é infinitamente superior a toda a ciência dos homens? (6)

 Nesta perspectiva, com base em São Tomás de Aquino, nos responde Mons. João Clá Dias, EP:

Esse insondável mistério de vida ad intra de Deus, baseada no amor, tornou-se cognoscível apenas pela Revelação. Para a inteligência humana resulta impossível entendê-lo, pois nada há na ordem da criação que possa dar ideia explícita dele. “É impossível chegar ao conhecimento da Trindade das Pessoas divinas pela razão natural”, afirma São Tomás. Logo a seguir, esclarece ser-nos possível conhecer a Deus, por mero raciocínio, “o que pertence à unidade da essência, não à distinção das Pessoas”. (7)

 Em outros termos, a razão humana foi capaz de chegar a conhecer a Deus, mas não a sua Trindade.

Porém, uma vez que a ciência dos homens não alcança esta verdade, qual deve ser a postura nossa em relação ao Mistério da Santíssima Trindade?

Santo Agostinho

Um dos maiores doutores da História da Igreja, Santo Agostinho, nos indica a via: “Se almejamos compreender tanto quanto nos é possível a eternidade, a igualdade e unidade de um Deus trino, precisamos crer antes que entender (8) [grifo nosso]. Ou seja, a partir da humildade e da fé poderemos – tanto quanto permita a nossa natureza e ainda auxiliados pela graça de Deus – ter um certo conhecimento da Trindade de Deus.

Sim, humildade! Virtude que nos coloca em relação a Deus no nosso devido lugar, reconhecendo nossa limitação, contingência e dependência para com nosso Criador. É a partir daí, praticando aquela que é a “virtude que Deus ama acima de todas as outras” (9)– conforme leciona São Luis Maria G. de Montfort – e não nos elevando a nós mesmos com soberba, que Deus nos dará, tanto quanto comporte a natureza humana, a graça de Seu conhecimento, que deve ser a razão de nossa plena alegria.

Unida à humildade encontra-se a fé, “virtude sobrenatural infusa, pela qual cremos firmemente todas as verdades reveladas por Deus e propostas pela Igreja” (10). Encontramos nas Sagradas Escrituras um ilustrativo e maravilhoso exemplo de humildade e fé diante dos mistérios de Deus: os pastores de Belém.

Embora despojados de maiores conhecimentos ou de uma inteligência especialmente cultivada (nos dias atuais poderiam ser definidos como ignorantes e analfabetos), creram e discerniram, pelo senso da fé, a presença do sobrenatural. Quando o Anjo anunciou, foram ao encontro do Deus Menino e, prostrando-se no Presépio, O adoraram. Podemos mencionar, ainda, a inocência das crianças que, sendo batizadas, creem sem colocarem a menor dúvida e sem buscar explicações no âmbito da razão.

Assim, com este espírito humilde, cheio de fé, flexibilidade e com a submissão de todo o entendimento e vontade ao sobrenatural, rezemos nesta Solenidade da Trindade, a Oração do Dia que nos propõe a Liturgia da Igreja:

 Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente. Por nosso Senhor Jesus Cristo (11).

Adilson Costa da Costa

(1) Agência Nacional de Telecomunicações. Relatório 2012. Disponível em <http://www.anatel.gov.br/Portal/verificaDocumentos/documento.asp?numeroPublicacao=297390&pub=original&filtro=1&documentoPath=297390.pdf>. Acesso em 24 de maio de 2013.
(2) Ed Bullmore. Nosso cérebro chegou ao limite, diz neurocientista. Revista Galileu. Disponível em <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,DML14634-17580,00-NEUROCIENCIA.html>. Acesso em 24 de maio 2013.
(3) São Bellarmino. In: Catecismo Popular. Primeira Parte: a Fé. Francisco Spirago. 2ª ed. Tipografia da Empresa Veritas, p. 30, s/d.
(4) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã. 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 15.
(5) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã, 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 16.
(6) Santo Antônio Maria Claret. Colección de Práticas Dominicales. v. II, Barcelona: L. Religiosa, 1886, p. 256.
(7) Mons. João S, Clá Dias, EP. O inédito sobre os Evangelhos. v. V, Coedição internacional de Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana e São Paulo: Instituto Lumen Sapientiae, 2012, p. 398.
(8) Santo Agostinho. De Trinitate. L. VIII, c.5, n.8. In: Obras. v. V, Madrid: BAC, 1956, p.514.
(9) São Luís Maria G. de Montfort. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. 42ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012, p. 140.
(10) Segundo Catecismo da Doutrina Cristã, 117ª ed. Petrópolis: Vozes, 2007, p. 96.
(11) Liturgia Diária. Ano XXII: n. 257: Maio de 2013. São Paulo: Paulus, 2013, p. 90.
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