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Os bons propósitos de Ano Novo e a Virtude da Prudência

Pululam no início de cada ano mensagens e e-mails que, gratuitamente apregoam generosos conselhos e dicas para o ano novo: procuram convencer seus leitores a mudar de vida, estabelecer metas e bons propósitos para o ano que se inicia. Algumas mensagens trazem recomendações muito práticas e objetivas, como, “alimente-se melhor; faça exercícios físicos”, outros trazem avisos bem óbvios, do tipo “não desperdice sua energia com fofocas”… outros bem abstratos: “Sonhe mais!” outros, ainda, trazem indicações bem mais teóricas e um tanto inatingíveis: “Não tenha pensamentos negativos”… E por aí vai.
Porém, todos esses conselhos e essa imensidade de mensagens de cunho otimista – que marcam e consagram a chegada do ano novo – têm também um aspecto muito interessante e que vale a pena ressaltar: a necessidade de planejamento.

A atmosfera de mudança do calendário, por si mesma e certamente por uma graça própria que a Providência concede neste período, faz com que as pessoas pensem, organizem e escrevam uma série de “bons propósitos” para o ano novo.

A atitude de procurar vislumbrar as dificuldades e encontrar os meios de contorná-las é, sem sombra de dúvida, muito positiva e louvável. É semelhante à atitude do “homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha” (cf. Mt 7, 24). O planejamento é a rocha na qual assentaremos a nossa casa: sem ele, todos os bons propósitos ruirão como ruiria a casa construída na areia.

 

Seria ótimo que mais e mais pessoas procurassem adotar esse costume de fazer “bons propósitos” utilizando-se de um bom planejamento. E o que é o planejamento? Um professor de Administração poderia defini-lo como nada mais, nada menos que escolher os meios para chegar aos fins que temos em vista. Um exemplo bem simples e comezinho: A pessoa tem o propósito de chegar ao final do ano sem dívidas e com recursos financeiros disponíveis, com saldo positivo na conta corrente. Como atingirá essa meta? Precisará realizar ações que a levem a gastar menos do que irá ganhar. Ou, se não for possível diminuir os gastos, deve aumentar as receitas. Parece bem evidente. Porém, sem planejamento (meios para chegar aos fins), esse propósito será inócuo, vazio, sem sentido. Será letra morta e, ao final do ano, apenas um sentimento de frustração é o que restará. Por quê? Simplesmente, por que o “bom propósito” não foi assentado sobre a rocha firme do bom planejamento.

Saindo da esfera meramente material e elevando nosso tema da terra para o Céu, podemos também perguntar: quantos católicos pensaram, organizaram e anotaram bons propósitos de vida espiritual para o ano novo? Certamente muitos, graças a Deus, inclusive nossos leitores. Entretanto é também necessário planejamento para colocá-los em prática e, assim, subir todos os degraus que o Divino Mestre quer ver alcançados por nós. Ele que, com amor e cuidado planejou o Céu e a terra e nos amou desde toda a eternidade.
E o que é o “planejamento”, na vida espiritual? É praticar a Virtude da Prudência.
E o que é a virtude cardeal da prudência?
Ad.Tanquerey define a prudência como “uma virtude moral e sobrenatural, que inclina a nossa inteligência, a escolher, em qualquer circunstância, os melhores meios para atingir aos nossos fins, subordinando-os ao nosso fim último”. O Catecismo da Igreja Católica traz uma definição na mesma linha: “A prudência é a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo” (cf. Catecismo da Igreja Católica, n. 1806).
Trata-se, portanto, de buscar os melhores meios para atingir aos nossos fins espirituais, ou seja, por em prática os nossos bons propósitos. Há, porém, uma distinção entre a prudência meramente humana e a prudência cristã. A prudência humana preocupa-se unicamente com os bens terrenos, sem subordiná-los ao nosso fim último, que é a vida eterna.

O Fundador dos Arautos do Evangelho, Monsenhor João Clá, comentando a parábola do administrador infiel, contada por Nosso Senhor no Evangelho de São Lucas, (cf. Lc 16, 1-13), distingue claramente a dificuldade que temos em ser prudentes quando se trata dos assuntos de nossa salvação. Destacamos os trechos abaixo :
“Não poucas vezes a falsa prudência sabe empregar manhas e artimanhas para obter os bens terrenos, mas não os eternos. Para ela, o fim justifica os meios. Fundamenta-se ela na sabedoria deste mundo e daí surgem equívocos como, por exemplo, o de querer construir edifícios eternos com o que não é senão passageiro”.
“Se tivéssemos robusta convicção a respeito de nossa vida post-mortem, o fim último de nossa existência, seríamos mais diligentes em aplicar os devidos meios para obter a perpétua felicidade”
E ainda, comentando sobre a estratégia do administrador infiel em garantir sua sobrevivência depois de ser demitido pelo patrão:
“Chama a atenção a pressa do administrador em atingir suas metas. Infelizmente, assim também somos muitos de nós, ou seja, elaboramos planos e com rapidez os realizamos para os fins a atingir neste mundo, mas tudo se torna difícil, e até insolúvel, quando o objetivo é a nossa santificação. Nosso fim último é supremo em relação aos outros, mas nem sempre lhe tributamos a importância devida. Quantos de nós não preferimos – bem ao contrário desse administrador – deixar para amanhã a realização de nossos propósitos de santidade?”

Encerrando, trata-se, portanto, de perseguir bons propósitos de vida espiritual para o ano novo, mas, cercá-los com a prática da Prudência Cristã.
Para ilustrar, tomemos um exemplo prático: a devoção do Santo Rosário. Um consagrado ou uma consagrada a Nossa Senhora, segundo o Método de S. Luís Maria Grignion de Montfort – e felizmente são muitos – pode colocar como propósito a oração diária do Rosário. E, de fato, esse seria um ramalhete de lindas rosas oferecido à nossa Mãe Santíssima durante o ano. Mas, é preciso determinar os meios: Como organizarei a minha vida cotidiana? Que horário irei reservar no meu dia para fazer essa oração contemplativa? Procurarei dedicar pelo menos algum tempo, na semana, no mês, para estudar a devoção do rosário, procurando obter os meios intelectivos para tornar essa prática mais eficiente para melhorar minha vida espiritual e aumentar meu amor ao próximo? E assim por diante. Buscar os meios para atingir os fins: Virtude da Prudência.
Procure saber mais sobre esta e outras belas virtudes cristãs e como a sua prática pode nos ajudar em nossa vida espiritual. Além do Catecismo da Igreja Católica e de bons autores católicos que tratam do assunto, você poderá pesquisar e estudar também através do site dos Arautos do Evangelho (www.arautos.org.br).
Que Maria Santíssima nos ajude para que este seja um ano de bons propósitos, cumpridos prudentemente!

Por Prof. João Celso – Arautos Maringá

1 A.D. Tanquerey. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1964, 6ª. Ed. Página 482

2 Monsenhor João Clá Dias, EP. A prudência da carne e a prudência santa. Revista Arautos do Evangelho, Set/2007, n. 69, p. 10 a 17. Cf.: http://www.arautos.org/artigo/4454/A-prudencia-da-carne-e-a-prudencia-santa

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