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Quem foi rei, nunca perde a majestade!

       “O senhorr veio falarr com Dom Jaime… é dos Arrautos! Ele vai atenderr, pode sentarr…”
     Era a postura protocolar invariável da Irmã Maria, com seu sotaque alemão, sempre que a gente ia falar com venerável primeiro bispo-arcebispo de Maringá, Dom Jaime Luiz Coelho, em sua “residencia- palacial”. Essa expressão eu “furtei” do saudoso amigo, padre Thelmo Favoretto.
       Na verdade, Dom Jaime era cerimonioso, um fidalgo! Não tinha sangue nobre, mas o ambiente familiar, a educação, a formação eclesial de antanho o marcaram para toda a vida. Assim, mesmo alquebrado pela idade, era uma figura digna de um príncipe da Igreja Católica. 
     Durante uma longa e agradável conversa (Dom Jaime era muito bom “coseur”, como dizem os franceses), começou ele a relatar suas origens, seu ambiente familiar, as atividades na região francana, no Interior paulista.
    Fiquei admirado como dali nasceu uma pessoa com tanta educação, “convenance”, capacidade diplomática, elevação cultural. Quem conheceu os primórdios de Maringá, na década de 40, sabe bem o que era o primitivismo de então. Imagine o que podia ser a sua terra pelos idos de 1920/30… Aqui entra o papel do ambiente: as famílias tinham paradigmas, tinham referências por onde, mesmo naquele sertão,  brotava um jovem afidalgado e culto como nosso arcebispo. Bons tempos aqueles em que o almoço ou jantar não eram dominados pela malvada “rainha” TV! Ainda prevalecia a luz de vela ou do lampião… e o calor dos pais e irmãos!
      O que herdou do ambiente de infância foi requintado ao tomar o caminho do sacerdócio, quando os seminários formavam varões aptos a enfrentar as hostilidades do laicismo e do positivismo difundidos desde a  República Velha. 
      Bastante moço ainda, foi acertadamente designado bispo de Maringá. Anos depois, recusou ele promoções que o distanciariam desta terra abençoada, onde quis viver e morrer. Não que lhe faltassem talentos… ele os tinha abundantes.
     Mais que pela riqueza de suas palavras, impunha-se pela dignidade da presença e nobreza dos gestos. Sabia ser forte sem ser bruto. Um diplomata a serviço da Igreja.
     Uma vez arcebispo resignatário, Dom Jaime, embora sempre influente, manteve-se mais numa postura de um eremita. A todos recebia em sua casa e tinha um trato muito paternal, sem perder a nota de fidalguia. “Vaidade!” Eu não diria. Prefiro chamar de “dignidade”! Era um monumento!
       Tinha grande estima pelos pequenos. Assim é que quando os adolescentes dos Arautos de Maringá iam fazer-lhe alguma apresentação musical,  ele se desdobrava em atenções para com todos, interessado em saber de quem eram filhos até descobrir algum cujos pais lhe eram conhecidos.  De memória privilegiada, narrava-lhes episódios da infância, ou dos tempos em que o “Fim da Picada” era o fim da cidade de Maringá mesmo!
      Sobre a educação que dona Guilhermina, sua estimada mãe, dera aos 10 filhos, explicava que cada um tinha uma função, sendo ele o encarregado de manter a sala de visitas bem varrida e em ordem, pois de uma hora para outra chegava um visitante, e não havia telefone para avisar… Tocava a uma das irmãs preparar um lanchinho regado com chá de erva cidreira, o mais “ecumênico” dos chás. “Papai nos ensinou que trabalhar não faz mal para menino nenhum. Então, sejam trabalhadores junto com os Arautos” – arrematava ele. 
       Nunca a prosa em sua residência episcopal terminava sem um giro pelo jardim (que apresentava como se fosse Versalhes). Apoiava-se no braço de um ou dois jovens e íamos todos ouvindo suas explicações, no que se sentia mais o encanto de suas narrativas que o perfumes das plantas. Já tendo servido as famosas “coxinhas da asa”, faltava só o licor, do qual seu bom gosto era bem devoto: receita para quem deseja vida longa como nosso velho eremita!
       Muita coisa ainda teria, se não fosse abusar da paciência dos internautas que nos visitam. Só mais uma!
      Era bonito ver Dom Jaime chegar à Catedral para celebrar a “Missa do Galo”, à meia-noite. Sempre de batina filetada, faixa e solidéu, entrava pela porta principal. Desembarcava, depois que um gentil diocesano lhe abria a porta, cumprimentava os circunstantes e dava uma olhada  nos entornos, como quem contempla um quadro impressionista que lhe trazia à memória décadas passadas, em que o pastor era ovacionado pelo rebanho. E se dirigia para o templo por ele construído, cumprimentando com o olhar a quantos lhe formavam alas.
       Quem foi rei, nunca perde a majestade! Agora, o Rei dos reis o chamou…
       
       Por Vasco de Sá Guimarães

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