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Uma pequena história sobre a grandiosidade da Festa de Corpus Christi

Não raras vezes, por mais cientes e conscientes que estejamos sobre a importância e beleza incomensurável das festas litúrgicas, passa-nos desapercebido o significado e esplendor destas celebrações. Assim, trazemos ao conhecimento de nossos leitores uma história narrada pela Ir. Ariane Heringer Tavares, EP, sobre a Festa de Corpus Christi; as histórias são capazes não apenas de ilustrar um fato ou contextualizar algo, mas remontam à nossa infância e permitem que voltemos nosso olhar para as maravilhas da Providência com a sensibilidade e pureza das crianças. Acompanhemos a história.

Aquela manhã de junho não poderia ter despontado no horizonte mais radiante. O Sol resplandecia de forma toda especial, os pássaros chilreavam com regozijo, o rumor das fontes parecia cantar a glória de seu Criador… Toda a natureza dava mostras de júbilo no dia em que se celebrava a Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo.

E se até nos seres irracionais transparecia esta alegria, com maior razão ela se manifestava nos ardorosos fiéis daquela pequena aldeia. Instruídos com esmero pelo padre Pierre a respeito da devoção ao Santíssimo Sacramento, todos estavam muito empenhados em preparar a cerimônia da tarde: os coroinhas e sacristães se ocupavam da ornamentação do altar; as mulheres, dos arranjos de flores e da limpeza da igreja; os homens, de endireitar e limpar os caminhos pelos quais passaria a procissão. Quanto ao sacerdote, passou ele quase toda a manhã no confessionário, pois seu rebanho, mais do que oferecer pompas exteriores a Nosso Senhor Jesus Cristo, desejava ofertar-Lhe a alma limpa de qualquer falta, digna de recebê-Lo na Sagrada Comunhão.

Na hora marcada para a Missa, a pitoresca igrejinha estava tão adornada e brilhante que mais parecia uma pequena catedral! A cerimônia foi realizada com o maior esplendor e compenetração, despertando uma piedade ainda mais ardente nos corações dos fiéis. O pároco mal conseguia conter sua alegria e, à noite, antes de se recolher, rendeu ao Senhor uma fervorosa ação de graças pelos benefícios e dons derramados naquela celebração.

Entretanto, depois das inúmeras provas de devoção que havia presenciado, ele nem podia excogitar a terrível surpresa que lhe estava reservada para a manhã seguinte…

Como de costume, o padre Pierre acordou antes do amanhecer e logo foi se preparar para a Missa matutina. Ajoelhado num dos primeiros bancos da igreja, rezava: além das diversas intenções, pedia a Nossa Senhora um amor mais puro e intenso à Santíssima Eucaristia para si e para todo o povo. Porém, ao se aproximar do altar, notou que algo estava diferente… e custava a acreditar no que seus olhos viam!

O sacrário fora arrombado e levaram as duas âmbulas cheias de partículas consagradas que ele havia guardado na véspera. Ato contínuo mandou que fossem tocados os sinos a rebate para convocar a comunidade.

Todos atenderam prontamente ao chamado, manifestando um fervente desejo de desagravar tão infame pecado e encontrar o quanto antes as Hóstias subtraídas. Mas por onde poderiam começar a procurar se não havia nenhuma pista dos sacrílegos assaltantes? O zeloso sacerdote dividiu o povo em grupos, exortando-os a pedir com insistência o auxílio divino para localizar as Sagradas Espécies.

Alguns iniciaram a busca pelos arredores da igreja; outros, pelos montes que cercavam a aldeia. Vários, por fim, dirigiram-se aos campos cultivados, na confiança de descobrirem algum vestígio do sucedido. Contudo, apesar do esforço, nenhum dos grupos obteve o menor êxito em sua investigação. Ao cair da tarde, quando todos retornavam extenuados e abatidos, ouviram do lado de fora os gritos de uma criança ofegante:

– Padre, padre! Encontramos! Venha depressa!

O pároco levantou-se de um salto e seguiu o menino a passo rápido, até alcançarem uma plantação de trigo, distante dali uns 5 km. Chegando ao local – oh, maravilha! -, o padre Pierre achou, envolvidas por uma suave luz, as partículas intactas. Todavia, as âmbulas haviam desaparecido e, pior, infelizmente só estava a metade das Hóstias roubadas…

Tomaram com toda reverência as Sagradas Partículas e voltaram para a igreja, em improvisada procissão. Ali passaram a noite em vigília, revezando-se na adoração ao Santíssimo Sacramento. E a procura das demais Hóstias continuou por mais de uma semana, sem que esmorecesse o ânimo ou a fé dos aldeães, apesar da falta de sucesso.

Certo dia, Jacques, o padeiro, que a cada manhã levava suas broas, baguetes e doces para serem vendidos na cidade, reparou numa distinta dama sentada em uma pedra, sob um carvalho, à beira da estrada. Ao retornar, mais tarde, a nobre senhora continuava ali. Ele, então, resolveu aproximar-se. Apresentou-se com simplicidade e perguntou respeitosamente se lhe podia ser útil em algo.

Após agradecer a cortesia, a bela dama lhe respondeu com suavidade e doçura:

– Estou fazendo companhia a meu Filho.

Sem entender bem, Jacques fez uma respeitosa vênia e retirou-se

Sem entender bem, Jacques fez uma respeitosa vênia e retirou-se

Sem entender bem, mas intuindo algo, Jacques fez uma respeitosa vênia e retirou-se estupefato.

Ao chegar à aldeia, correu para avisar ao padre Pierre do acontecido. O sacerdote conhecia o padeiro desde criança e sabia não ser ele nada propenso a fantasias. Fitava-o, enquanto este lhe fazia o relato, e afirmava-se a cada instante no pároco a convicção de ser aquilo um sinal.

Mandou convocar todo o povo e dirigiu-se imediatamente para junto do carvalho.

A distinta senhora já não estava mais e havia desaparecido sem deixar rastro…

Não obstante, uma suave luz emanava de uma fenda no interior do carvalho. Contendo a emoção, o padre Pierre introduziu o braço pela abertura e sua mão logo apalpou um objeto de metal. Era uma das âmbulas desaparecidas! Desdobrando o corporal em cima de uma pedra – justamente aquela sobre a qual Jacques vira sentada a bela dama -, depositou nele a âmbula e ajoelhou-se antes de abri-la. No entanto, teve uma decepção: estava vazia!

Apenas alguns fragmentos, esparsos e minúsculos, indicavam haverem estado ali as Sagradas Espécies, e quiçá fossem aquelas já encontradas. Onde teriam posto a outra? Conteria ainda o Santíssimo Sacramento?

Tão absorto estava em seus pensamentos, que Jacques precisou tocar-lhe o braço para atrair sua atenção:

– Padre Pierre, padre Pierre! A fresta do carvalho continua iluminada. Deve haver algo mais…

O sacerdote voltou-se e, com agilidade, introduziu novamente o braço na fresta, tocando a segunda âmbula! E as Hóstias faltantes, de fato, continuavam em seu interior!

Após um breve ato de adoração, o pároco tomou as Sagradas Partículas, cobriu-as com um véu e conduziu-as até a igreja, onde já bimbalhavam os sinos.

Enquanto puxava jaculatórias, o pároco pensava no ocorrido

Enquanto puxava jaculatórias, o pároco pensava no ocorrido

Enquanto puxava jaculatórias ou acompanhava os cantos entoados pelo povo, pensava no acontecido… A perda e o encontro de Jesus Eucarístico tinha tornado a todos mais cientes do imenso valor do Santíssimo Sacramento!

Que esta singela história possa inspirar cada um de nós sobre o valor incomensurável da Sagrada Eucaristia e possamos, pela intercessão de Nossa Senhora, ao celebrarmos a Festa de Corpus Christi, compreender o pleno amor de Nosso Senhor por cada um e buscar retribuí-Lo por todos os dias de nossa existência terrena e na Eternidade.

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Revista Arautos do Evangelho, Junho/2014, n. 150, p. 46-47.

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