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Como um astro luminoso

Quando temos a ventura de admirar um céu bem estrelado, é ou não verdade que participamos da seguinte expectativa: “será que verei uma estrela cadente?” E não é para menos, pois tal fenômeno raramente acontece.

São Gregório Magno – Catedral de Colônia, Alemanha

Imaginemos, então, que isso se desse, caso possível fosse ao contrário; ou seja, não presenciássemos o desaparecimento de uma estrela, mas o surgimento da mesma. Já pensaram que magnífico seria, a compassados instantes que olhássemos para a abóbada celeste, deslumbrarmos um novo astro?

Pois bem, analogamente, a cada momento que tomamos conhecimento de algum episódio relacionado a um santo, nada mais é do que um novo brilho que cintila no firmamento de nossos corações, convidando-nos à pratica do bem.

Tal foi a vida de São Gregório Magno (540), toda palmilhada de constelações de virtudes, cujas algumas magnificências serão aqui relatas no presente artigo.

Viveu ele no século VI, época pervadida de terríveis conturbações, merecedora por suas próprias palavras desta afirmação: “Sou obrigado a… gemer sob as espadas dos bárbaros invasores e temer os lobos que rondam o rebanho sob minha guarda”. (1)

Eleito Sumo Pontífice no ano de 590, sendo antes Prefeito de Roma, empregou seus contínuos esforços em busca da propagação da Fé Católica, tendo por principal ação evangelizadora o desenvolvimento do monacato, confiado aos beneditinos com vistas à formação de monges capazes de cristianizar, futuramente, vastidões inimagináveis.

Sobre o fruto dessa ação, comenta-nos Montalembert que: “Eles os farão instrumentos do bem e da verdade. Ajudados por esses vencedores de Roma, levarão o império e as leis de uma ‘Nova Roma’ muito além das fronteiras que o Senado fixou ou que os Césares imaginaram”. (2)

Como dado histórico que também nos confirma seu ímpeto no referido engenho, fundou ele mesmo sete mosteiros com a herança que lhe coubera após a morte de seu pai, um poderoso senador.

Outro fato que marcara a existência deste varão, deu-se ainda antes mesmo de ocupar a cátedra de Pedro. Grassava em Roma, por consequência dos estragos causados por uma grande enchente do rio Tibre, uma terrível peste. Morreram inúmeras pessoas na cidade eterna, destacando-se entre elas até mesmo o Romano Pontífice Pelágio II, seu predecessor.

Castelo de Sant’Ângelo – Roma

Ordenara então uma grande procissão pelas ruas da cidade, e qual não foi a surpresa dos fiéis quando avistaram, pairando ao alto do mausoléu de Adriano, São Miguel Arcanjo! O Príncipe das Milícias Celestiais guardava sua espada de fogo, indicando, assim, que terminara o flagelo ocasionado pela peste. A partir disso, a referida fortaleza passou a ser denominada por “Castelo de Sant`Ângelo”.

Por fim, ao menos nesse pequeno relato de sua vida, salta-nos aos olhos um outro marco de seu apostólico desejo de santificação e conversão das almas. Estava ele, certo dia, andando pelo mercado marítimo de Roma quando, em determinado momento, avistou ancorado um navio cheio de escravos provenientes das terras do norte, mais propriamente da Britânia.

São Gregório Magno – Basílica da Virgem dos Milagres de Agreda – Soria, Espanha

Perguntando, pois, de onde vinham, obteve como resposta que eram anglos. Como que, numa visão profética, o grande santo retrucou: Non angli, sed angeli sunt!” (não anglos, mas sim anjos!). Assim, após comprar a todos esses escravos, colocou-os sob os cuidados de Santo Agostinho, futuro arcebispo de Cantuária, Inglaterra, para que lhes fosse ensinada a doutrina da Igreja, batizados e ministrado o estilo de canto litúrgico que leva o seu nome (canto gregoriano), com vistas à evangelização de sua terra natal. De tal modo isso se deu que, segundo nos narram as crônicas, mais de 10 mil neófitos foram batizados no dia de Pentecostes de 597.

Enfim, que belo reflexo aqui se reporta para Aquele que, como Pontífice Divino, comprou com os méritos de sua Paixão “um navio abarrotado de escravos do pecado”. Sim, éramos como mercadoria variada não fosse a Redenção. Que a exemplo de São Gregório e de seus anglos, saibamos recorrer a Nossa Senhora, Rainha dos Apóstolos, para levarmos a cabo toda a nossa missão.

Por Douglas Wenner

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(1) Liturgia das Horas. Tempo Comum: 18ª – 34ª Semana. v. IV, Editora Vozes – Paulinas – Paulus – Editora Ave Maria, 1999, p. 1246.

(2) Montalembert. Les moines d`Ocident, 1878,  p. 74.

(3) Obras de São Gregório Magno, BAC: Marid.

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Cegueira?

Em uma cidade cujo nome não convém aqui relatar, havia uma triste senhora pervadida de terríveis preocupações. Qual não foi sua preciptada resolução senão uma irracional decisão: “Já basta, vou me matar”!

E assim, para cumprir seu propósito, julgou ser de maior conveniência atirar-se de uma alta ponte que ficava não tão próxima de sua casa, convicta de ser isso a solução para todos os seus problemas.

Ora qual não foi sua surpresa quando, ao encontrar-se ao lado do corrimão da ponte, despedindo-se de tudo o que presenciara nesta vida, sente em uma de suas pernas um curioso golpe: tratava-se da “varinha” de um cego que, ao atravessar aquela ponte, obviamente não imaginara que alguém ali parado estivesse.

Pediu ele, então, desculpas, justificando-se por ainda não estar tão destro para andar sozinho, e que dependia, inclusive, da ajuda de uma pessoa caridosa, capaz de conduzi-lo até sua casa que ficava ali perto.

De relance, a senhora viu tudo girar a sua volta, pois a poucos instantes, certamente não mais estaria neste mundo. Teria sido a intervenção do cego uma simples coincidência? Entretanto, como bem nos ensina o salmista, “Senhor Vós me sondais e conheceis, sabeis quando me assento ou me levanto” (1); ou ainda, “até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados”. (2).

Como que renovada pelo episódio, a fortuita personagem resolveu ajudar o cego, conduzindo-o pelo braço ao seu mencionado destino. Não sabia ele que cega de alma estava ela, uma vez que não sabia valorizar, ademais, a visão que possuía.

Chegando em casa, o cego agradeceu comprazido à senhora, dizendo:

– Com mil perdões, peço-lhe mais uma vez desculpas pelo incômodo que causei. Além disso, saiba que são poucas as pessoas nesta cidade que possuem uma alma tão caridosa e bem empostada como a da senhora. Creio, certamente, que sois alguém muito feliz, pois está disposta a não pensar só em si, em suas aflições, mas encontra tempo para fazer o bem aos outros, inclusive a mim…

Nossa Senhora da Salvação – Lisboa

Que extraordinário exemplo nos dá esse fato, uma vez que para tirar-nos do mal caminho, Deus pode utilizar até dos mais inusitados meios. A senhora voltou para casa, e no percurso refletia quem de fato se encontrava cega. Quase se matara, atirando-se pela ponte, não fosse a intervenção divina por meio de um triste cego. Triste? Percebia também o quanto aquele homem encontrara sua felicidade na resignação! Sofria ele, certamente. Mas estava disposto a enfrentar seu imfortúnio, buscando outras vias para continuar a viver.

Saibamos, pois, também nós, não sermos cegos às inúmeras dádivas e dons que Deus nos dá. E reconheçamos em nossos problemas os obstáculos a serem transpostos, com o auxílio da graça, rumo à nossa santificação. Afinal, de que adiantaria vercermos se não tivéssemos de combater? Nas belas palavras de Corneille, “Quem vence sem esforço, triunfa sem glória” (3). De que serviria nossa perseverança na prática das virtudes, se em meio às tentações, não proclamássemos nosso amor a Deus?

É pois a mensagem contida neste pequeno artigo, convidando à confiança em meio a quaisquer dificuldades. Deus nos criou por obra de sua infinita benevolência, e ainda por insondável misericórdia, nos confiou ao pé da cruz, sua Mãe Santíssima, Consoladora dos Aflitos, e socorro certíssimo de todos os que a invocam.

Por Douglas Wenner

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(1) Salmo 138,1.

(2) Matheus 10, 30.

(3) Pierre Corneille, escritor francês do século XVII